Cefaleia do tipo Tensional

07/06/2012

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Cefaleia do Tipo Tensional - caso clínico. MFO, sexo masculino, 43 anos, empresário do ramo de calçados.
Procurou-me pela primeira vez há 3 meses queixando-se de cefaleia. Conta que de inicio a cefaleia acontecia uma vez por semana e relacionava-a aos dias de maior tensão no trabalho de gerência de sua empresa. De inicio não tomou qualquer providência, pois a cefaleia cessava enquanto fazia sua caminhada diária, no final da tarde. A cefaleia não era muito forte, referia que alcançava o nível 5 numa escala de zero a dez. Era em peso ou pressão, holocraniana, predominando nas regiões occipitais. Não tinha sintomas premonitórios ou aura visual e a cefaleia não era acompanhada por náuseas, sensibilidade à luz ou a ruídos. Considerava que era uma cefaleia comum até normal, pois não atrapalhava suas atividades, iniciando no final da tarde.
Porém a situação foi se agravando com o passar dos meses e a cefaleia ficou mais frequente e mais forte, iniciando mais cedo, logo após o almoço, o que tornava seus compromissos do final da tarde muito difícil, por causa da dor. Algumas vezes na semana não conseguia dar conta do programado para o dia por causa do sintoma. Tomava medicações para enxaqueca, por conselho de um amigo, quando a dor era mais forte, mas não tinha alivio da dor. Por causa disso procurou por ajuda médica.
Nossa orientação na primeira consulta foi educativa, não prescrevemos qualquer medicação. Explicamos que se tratava de uma cefaleia tensional, devido ao estresse do dia-a-dia e pedimos para reorganizar sua agenda equilibrando atividades profissionais, de lazer, de convívio social e familiar, mantendo ou até aumentando suas atividades físicas. Sugerimos que ao invés da medicação contra enxaqueca tomasse um longo banho relaxante, visto não se tratar de enxaqueca.
Voltou 2 meses depois contando que havia melhorado muito, com minhas orientações mas que em dias particularmente “pesados”, tinha cefaleia de forte intensidade que, se ocorresse durante o expediente, atrapalhava suas atividades; pediu-me que indicasse um analgésico para esses dias. Sugeri que usasse um antinflamatório, o ibuprofeno (Alivium), 600mg/dose.
Retornou a uma semana referindo que as cefaleias estavam sob controle. Alertei-o que medicações indicadas para dor de cabeça, quando tomadas em excesso (mais de 8 doses por mês) podem provocar piora do quadro álgico.
Discutiremos a seguir: o diagnóstico da cefaleia, a conduta não medicamentosa e medicamentosa e a opção pelo ibuprofeno (Alivium).
Diagnóstico:
Cefaleia do tipo tensional episódica.

As diferenças clínicas entre Cefaleia do Tipo Tensional e Enxaqueca estão resumidas no quadro 1.

Enxaqueca e cefaleia do tipo tensional são as cefaleias primárias mais prevalentes na população. A primeira acomete cerca de 25% das mulheres e a segunda, cerca de 50 a 70% da população em geral. A enxaqueca é uma doença herdada que se manifesta por crises complexas que podem ser constituídas por aura visual, cefaleia latejante de forte intensidade, náuseas e/ou vômitos, foto e fonofobia. Já a cefaleia do tipo tensional se caracteriza por intensidade moderada, em pressão ou aperto, em geral nucal e com predomínio no período vespertino. Ambas têm como sintoma principal a dor de cabeça. Enxaqueca e cefaleia do tipo tensional caracterizam-se por apresentarem crises de cefaleia recorrentes, de frequência muito variável, sendo de poucas por ano a várias por mês.

Em uma porcentagem não desprezível de pacientes (cerca de 15%) a enxaqueca e a cefaleia do tipo tensional evoluem para uma forma denominada “crônica”, na qual as crises se tornam muito frequentes – diárias ou quase diárias. Essa evolução é facilitada pelo uso frequente (mais de dez doses por mês) de medicações abortivas da cefaleia.

QUADRO 1 Diferenças clinicas entres enxaqueca e Cefaleia do Tipo tensional














Conduta
O tratamento inicial da cefaleia do Tipo Tensional Episódica é educacional. O médico deve tranquilizar o paciente quanto à benignidade do sintoma, evitando exames subsidiários, mesmo para os pacientes que não veem relação entre estresse e cefaleia. Orientar quanto à necessidade de mudar de vida. Diminuir preocupações e as horas dedicadas à profissão e/ou evitar situações que o estressam recorrendo a orientações psicológicas, quando forem necessárias. Se houver dor muscular associada orientar também para tratamento fisioterápico. Assim fazendo o médico estará tratando a causa da cefaleia tensional. Com o contínuo aumento das exigências de se cumprir metas cada vez maiores, nas diversas profissões, muitas vezes a orientação não- medicamentosa não é suficiente e em alguns dias será necessário o uso de analgésicos. Os anti-inflamatórios não-esteroidais são os mais indicados em diversos “guidelines” sendo o ibuprofeno o principal deles.
As doses recomendadas estão colocados no quadro 2
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