Enxaqueca e Epilepsia

11/06/2012

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Identifi cação – IRS, 28 anos, solteira, fisioterapeuta.
História clínica: Na primeira consulta realizada há 12 meses, contou que tem crises, desde os 8 anos de idade. As crises iniciavam-se com alterações visuais que duravam poucos minutos (de 2 a 3 minutos). Eram caracterizadas por bolas e quadrados coloridos, de várias cores vibrantes. Sempre eram unilaterais, do lado direito do campo visual. Durante esses poucos minutos, fi cava parada com os olhos arregalados, sem compreender bem o que estava acontecendo. As pessoas percebiam que IRS estava passando mal, porque fi cava calada e não respondia quando questionada. Depois do fenômeno visual, voltava a comunicar-se normalmente, mas surgia cefaleia de moderada intensidade, sem sintomas acompanhantes, que respondia bem aos analgésicos comuns. A frequência era muito baixa, em média uma crise por ano, até há cerca de nove meses, quando se tornaram frequentes, ocorrendo de duas a três vezes por mês. Não soube relacionar qual fator agravou seu problema. Além dessas crises, relatou que tinha dores de cabeça muito intensas, incapacitantes, acompanhadas de náuseas, sensibilidade à luz e ao som, com duração de até 12 horas. Essas crises surgiram na adolescência e ocorrem frequentemente no período menstrual, mas fora desse período elas podem ser desencadeadas por bebidas alcoólicas, fome, odores fortes– de gasolina, desinfetante ou perfumes. Antecedentes pessoais: Havia história de queda do berço aos 8 meses de idade com hematoma craniano à esquerda. Antecedentes familiares: As mulheres da família da mãe têm crises de cefaleia de forte intensidade e incapacitantes (têm que ir para cama quando ocorrem). Exames clínico e neurológico: Normais. Eletrencefalograma (EEG) que revelou espículas na região parietal esquerda. Ressonância magnética nuclear (RMN) encefálica foi normal.
Hipóteses diagnósticas: 1. Enxaqueca com e sem aura, ou 2. Associação de enxaqueca com epilepsia com aura occipital.
Discussão: As auras visuais da enxaqueca e das epilepsias com aura visual são muito diferentes e dificilmente são confundidas. A. Aura visual epiléptica com formas arredondadas e são quadradas muito coloridas. Duração de 2 a 3 minutos. B. Aura enxaquecosa sem cores (branco e preto), ziguezague característico (teicopsias). Duração de 5 ou mais minutos, com marcha típica iniciando na região central do campo visual e caminhando para a periferia. Alternância de lado em cada crise.
Nesse caso, aa auras são típicas: sempre ocorrem em um dos campos visuais, duração de 2 a 3 minutos, acompanhadas por alterações da consciência. A ocorrência de cefaleia após crise epiléptica é muito frequente. Muitas vezes a cefaleia pós-epiléptica tem características enxaquecosas e outras vezes é incaracterística, como é o dessa paciente. O EEG foi um exame fundamental, pois confi rmou o diagnóstico. A RMN encefálica excluiu processo orgânico cerebral que pudesse exigir tratamento específico.
Mas a paciente relatava ainda crises de cefaléias intensas, incapacitantes, duas a três vezes no mês com náusea, foto e fonofobia, e dizia que todas as mulheres da família da mãe tinham essas crises. Tais crises preenchem os critérios diagnósticos da enxaqueca sem aura.
A associação de enxaqueca com epilepsia não é rara e deve-se inquirir todo paciente com enxaqueca sobre ocorrência de epilepsia e vice-versa.
Tratamento e evolução: Prescreveu-se valproato de sódio de absorção programada (Depakote® ER) com dose inicial de 1 cápsula de 500 mg ao se deitar, na primeira semana, com aumento de dose para 2 cápsulas ao se deitar, após dez dias. A escolha pelo Depakote® ER foi feita de acordo com os seguintes critérios: 1. Tratamento das duas doenças com uma única medicação - epilepsia e profilaxia da enxaqueca. 2. A formulação ER permite uma única tomada diária.


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