Cefaléia em crianças e adolescentes

04/10/2012

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As crianças têm dor de cabeça? É muito freqüente as mães fazerem esta pergunta para os pediatras. Uma das causas mais freqüentes de cefaléia em crianças é a febre de qualquer causa. Uma gripe, infecção de amídalas, de vias urinárias e qualquer outra pode causar cefaléia de poucos dias, durante a infecção aguda. Os traumas cranianos são causas de dor de cabaça, mesmo os mais banais. Outras causas de dor de inicio recente são a sinusite e rinites alérgicas ou infecciosas. Raramente a cefaléia pode ser conseqüência de infecção intracraniana como a meningite, encefalite ou outra qualquer. O inicio recente de dor de cabeça numa criança sempre indica necessidade de se procurar um medico, pois dor será a mesma, em intensidade e características, quando causada por doenças mais simples ou potencialmente graves.

A principal causa a cefaléia crônica na criança é a enxaqueca. Essa frase também surpreende as mães. Explica-se esta surpresa, pois a enxaqueca na criança é muito diferente da que ocorre nos adultos. Os pródromos, a aura visual, raramente são percebidos pelas crianças e, mesmo percebendo elas têm muita dificuldade em explicar o que estão sentindo, pois entretidas com as brincadeiras não prestam atenção ao desconforto. Apenas quando surge a dor, param de brincar e procuram a mãe. A dor difere da dos adultos, pois são mais fracas e mais curtas (duram entre 1 a 2 horas e, às vezes minutos). As crianças retornam rapidamente para as atividades que estavam sendo desenvolvidas. Em geral essas dores de curta duração voltam varias vezes no dia. As mães estranham esse comportamento e é muito freqüente pensarem que é chantagem para conseguirem atenção. As náuseas podem ocorrer, mas não são fortes e, com um curto repouso, passam. Lembramos que crianças mais novas têm muita dificuldade em contar as características da dor, como por exemplo se é pulsátil, se piora com as atividades e o medico que cuida de enxaqueca infantil deve ter treinamento especial para perceber e interpretar tais dificuldades.

Nesta fase da vida, a porcentagem de meninos e meninas com enxaqueca é a mesma pois os hormônios dos dois gêneros são iguais. Após a adolescência as meninas são muito mais freqüentemente acometidas por enxaqueca que os meninos. Estudos realizados em escolas de primeiro grau mostram que cerca de 10 a 15% das crianças têm enxaqueca.

As crianças com enxaqueca faltam mais vezes e saem mais cedo das aulas devido às crises, mas em geral são bons alunos, aplicados, obedientes, estudiosos e compensam as faltas com estudo e responsabilidade tornando-se muito queridos de seus professores.

Como sabemos enxaqueca é conseqüência de um distúrbio neuroquimico cerebral herdado e, por isso um dos pais ou os dois apresentam enxaqueca o que pode ser interpretado por mães, pediatra e psicólogos com sendo um comportamento de imitação. Tal interpretação além de postergar o diagnóstico e o tratamento pode ser percebido pela criança levando-a à depressão, isolamento e magoa contida contra os pais, piorando os sintomas.

Os fatores desencadeantes de enxaqueca nas crianças são os mesmos dos adultos: preocupação, alguns tipos de alimentos, sol, calor, odores, dormir pouco ou muito, viagens etc. Uma vez descobertos os desencadeantes e evitando-os as crises costumam melhorar muito.

A criança enxaquecosa difere do adulto, pois ela tem alguns sintomas associados que são muito característicos e auxiliam no diagnostico, quais sejam:
1. Cólicas abdominais – durante a crise ou fora dela a criança enxaquecosa tem crises de dor abdominal, periumbelical muito intensas que duram alguns minutos. Durante elas podem ficar pálidas, amolecerem chegando quase ao desmaio. Muitas vezes passam por uma serie de exames; de fezes, ultra-som de abdômen que serão necessariamente negativos. Tal quadro recebe o nome de ENXAQUECA ABDOMINAL.
2. Vertigens paroxísticas – as crianças enxaquecosas têm, às vezes, crises de tonturas rotatórias (vertigem) que a desequilibram podendo cair ao chão ou ficarem impossibilitadas de ficar em pé. Duram alguns minutos e desaparecem mesmo sem tratamento. Podem se repetir algumas vezes num mesmo dia ou cada 1 –2 meses.
3. Dores nas pernas – acordam a noite, chamam pelos pais e pedem para que massageiem as pernas (abaixo do joelho), pois estão doendo. São dores de forte intensidade e desaparecem após alguns minutos. Podem ocorrer todos os dias antes de pegarem no sono ou após algumas horas de sono. São conhecidas erroneamente como dor de crescimento. As dores nas pernas são sintomas associados à enxaqueca da criança e nada têm a ver com o crescimento.
4. Cinetose – são sintomas que surgem durante viagens de carro ou ônibus. Caracteristicamente as crianças sentem-se mal, têm tonturas, náuseas chegando a vomitar. Tornam-se sonolentas e podem desfalecer. Quando adormecem, terminam a viagem sem outras complicações.
5. Febre recorrente – crianças enxaquecosas podem ter febre inexplicáveis, que duram algumas horas, durante as quais ficam prostradas, sonolentas. Melhoram espontaneamente, sentindo-se repentinamente muito bem.
6. Distúrbios do sono – são mais freqüentes em crianças que tem ou terão enxaqueca: sono agitado, sonambulismo, sonilóquio (falam dormindo) etc.
7. Sensibilidade exagerada aos traumas cranianos – crianças enxaquecosas apresentam reações anormalmente exageradas a qualquer pancada na cabeça. A dor é intensa, vomitam, a pressão arterial abaixa, amolecem, podendo desmaiar. Levadas ao medico, na avaliação do profissional, a criança apresenta-se como gravemente doente e quase que invariavelmente indica uma serie de exames tais como, tomografia cerebral computadorizada, de liquido cefalorraquiano, de sangue etc. Para surpresa e alivio de todos, após algumas horas, a criança fica bem, como se nada tivesse ocorrido. Tal sensibilidade também é característica das crianças que, embora não sejam enxaquecosas, têm familiares próximos, pai ou mãe, com enxaqueca.

Tais sintomas são auxiliares para se fazer o diagnóstico de enxaqueca na criança. Muitas vezes estes sintomas podem aparecer antes ou ocorrer por varias meses/anos antes de surgir as crises típicas de enxaqueca.

Enxaqueca é a dor de cabeça mais comum na infância, mas algumas delas podem ter cefaléia do tipo tensional. As diferenças com a enxaqueca são mais ao nível de fatores desencadeantes e ausência de familiares com cefaléia do que pelo tipo da dor. Entre os fatores desencadeantes destacamos o estresse gerado por desajustes familiares (brigas do casal, rejeição, alcoolismo, abuso sexual etc) ou escolares com os professores ou colegas.

Na adolescência verifica-se que os meninos vão deixando de ter as crises que podem até desaparecer enquanto que as meninas passam a ter crises cada vez mais prolongadas, com dor cada vez mais intensa, ocorrendo preferentemente no período menstrual e, paulatinamente as crises vão adquirindo as características das dos adultos com as 4 ou 5 fases, já descritas.

Em resumo, a enxaqueca difere da maioria de outras doenças cujos sintomas são muito parecidos quer ocorra numa criança quer ocorra num adulto, como por exemplo, podemos citar a sinusite, a gripe, entre outras. O enxaquecoso quando criança tem sintomas referidos como equivalentes da enxaqueca: cólicas, abdominais, dores nas pernas, febre recorrente, vertigens, alterações do sono. Quando um pouco maiores, ou seja, por volta de 7 a 9 anos de idade, predomina a cefaléia de curta duração e mais fraca, até que na adolescência com a diferenciação hormonal entre meninos e meninas, a enxaqueca nos primeiros pode desaparecer e, nas meninas adquire as características conhecidas por todos que padecem deste distúrbio.


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